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Capítulo 3
Esboço de Jesus

Como gostaríamos de ter conhecido Jesus pessoalmente, de ter escutado as suas palavras, de ter visto o seu modo de ser, os seus gestos! Não foi possível.

 

Confiamos, porém, naqueles que o viram e escutaram, os apóstolos e evangelistas, e, partindo dos Santos Evangelhos, faremos um esboço de Jesus de todos os ângulos: corporal, moral, intelectual, espiritual, psico-temperamental. Afinal, os Santos Evangelhos nos trazem um esboço de Jesus, em pinceladas, mas profundo e verdadeiro, e é graças a ele que nós poderemos extrair com admiração e respeito as qualidades do mais formoso dos filhos dos homens: Jesus Cristo.

 

 

1   Esboço espiritual de Jesus

 

As riquezas espirituais de Jesus são inesgotáveis. Qual é o centro espiritual da sua atividade religiosa? Sem dúvida alguma, a vinculação filial com Deus, seu Pai. Por isso a vida dele foi uma oração contínua. Tudo lhe falava do Pai. Recorria ao Pai para as decisões mais importantes, como a escolha dos seus apóstolos (cf. Lc 6,12). A Ele dirigia a sua ação, seus milagres. Vivia abandonado nas mãos do seu Pai Celestial. O fundamento, a rocha da sua vida é o Pai. A riqueza da sua vida é o Pai. O ponto de referência é o Pai. A Ele Jesus se dirigia quando se levantava e quando se deitava, rezava e com Ele dialogava. A Ele oferecia o seu caminhar e os seus êxitos apostólicos. A Ele pedia a graça para curar e sanar. A Ele se dirigia quando os homens queriam desvirtuar a sua missão espiritual. Apresenta o Pai como o Ideal de santidade. Fala dele nas suas pregações e o retrata como Pai, como vinhateiro preocupado com a vinha. Vivia unido a Ele com laços indestrutíveis. E a Ele obedeceu em tudo. Jamais encontraremos ninguém que tenha entendido como Ele, em toda a profundidade e extensão, absorvendo-o durante a vida, o antigo preceito "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças".

 

Suas primeiras palavras conhecidas nos recordam a intimidade com o Pai: "Não sabeis que eu devo me ocupar das coisas do meu Pai? (Lc 2,49). E suas últimas palavras serão um resumo da sua vida, centralizada no Pai: "Pai, em tuas mãos eu entrego o meu espírito" (Lc 23,46). Toda a sua vida é entrega a uma missão confiada pelo Pai, e a sua Paixão na cruz não é mais do que a culminação da sua luta por cumprir a vontade do Pai.

 

O Pai era, portanto, o motor da sua ação, o ímã do seu coração, a bússola que marcava sempre o norte da sua vida. Ele era com seu Pai o Filho excepcional, atento, carinhoso, agradecido. Ele não conta, só conta o Pai. Esquecido de si, Ele só apresenta, transmite e ama o seu Pai.

 

Jesus só precisa do Pai. Seus discípulos já estavam com Ele havia três anos, mas Ele nunca deliberou com eles sobre seus planos e resoluções nem lhes pediu conselho. Havia em Jesus algo íntimo, um sancta sanctorum ao qual não tinha acesso nem mesmo a sua mãe; somente o Pai. Na sua alma humana havia um lugar, o mais profundo, completamente vazio de tudo o que é humano, livre de qualquer apego terreno, absolutamente virgem e consagrado totalmente a Deus. O Pai era o seu mundo, sua realidade, sua existência e com Ele Jesus levava em comum a mais fecunda das vidas. Sua oração não é mais do que um novo ponto de contato com Ele, uma feliz necessidade de dar repouso e de fundir a solidão do próprio Eu no Pai; é precisamente rezando que Ele se mantém unido ao Pai numa unidade da qual os homens não participam. Nem sequer os seus discípulos.

 

Como é que Jesus apresenta o seu Pai? Como Deus todo-poderoso, Criador que age (cf. Jo 5,17); como Pai providente e solícito com as suas criaturas, que veste os campos e alimenta as aves (cf. Mt 6,25-26); como Pastor que cuida das ovelhas e vai à sua procura (cf. Lc 15,4; Jo 10,1-18). Mas a revelação mais bela que Jesus nos fez de Deus foi a de podermos chamá-lo Pai (cf. Mt 6,9).

 

 

2   Esboço corporal de Jesus

 

"É de elevada estatura, distinto, de rosto venerável. Seus cabelos, cacheados e anelados, de cor muito escura e brilhante, caindo sobre os ombros do jeito nazareno. A fronte é limpa e serena; o rosto sem ruga nem mancha. Seu nariz e boca são regulares. A barba abundante e partida ao meio. Os olhos de cor cinza azulado, claros, plácidos e brilhantes e resplandecem em seu rosto como raios de sol, de modo que ninguém pode olhá-lo fixamente. Quando repreende é terrível; quando admoesta, doce, amável, alegre, sem perder nunca a gravidade. Nunca ri, mas chora com freqüência. Caminha com os pés descalços e com a cabeça descoberta. Estando em sua presença ninguém o despreza; ao contrário, tem-lhe profundo respeito. Mantém-se sempre ereto; seus braços e suas mãos são de aspecto agradável. Fala pouco e com modéstia. É o mais formoso dos filhos dos homens. Dizem que este Jesus nunca fez mal a ninguém; ao contrário, aqueles que o conhecem e estiveram com ele afirmam ter recebido dele grandes benefícios e saúde". Conforme os hebreus me dizem, nunca se ouviram tão sábios conselhos e tão belas doutrinas. Há, entretanto, quem o acuse de ir contra a lei de Vossa Majestade, porque afirma que reis e escravos são todos iguais perante Deus" (Públio Lêntulo, procurador da Judéia, ao imperador).

 

Quais os traços físicos de Jesus que podemos obter dos Evangelhos?

 

Corpo robusto e resistente. A vida dura de artesão e as andanças e correrias pelas colinas que circundam Nazaré robusteceram o corpo de Jesus, preparando-o para as duras jornadas da sua vida apostólica, para as intempéries nas estradas da Palestina. Sabemos que numa viajem percorreu 30 quilômetros pela estrada inclinada que sobe de Jericó a Betânia.

 

Junto ao poço de Jacó sentou-se fatigado e sedento. Quando os discípulos lhe ofereciam comida, recusou dizendo que o seu alimento era fazer a vontade do Pai, e antes já havia recusado a bebida que a samaritana lhe oferecera. Não sabemos se Jesus, naquela viagem, comeu ou bebeu apesar de cansado, o que prova a sua conformação robusta. O evangelista detalha que Jesus ia na frente dos discípulos na subida até Betânia. Suas viagens apostólicas são exaustivas; numa delas Ele prega na sinagoga de Cafarnaum pela manhã, cura um possesso e a sogra de Pedro e, à tarde, se dedica a curar os enfermos que afluem de toda a parte. No dia seguinte a multidão o procura e começa de novo a penosa jornada. Assim Ele percorre todos os povoados da Galiléia, pregando a penitência e a mensagem de salvação. É tal o trabalho que tem que muitas vezes não tem tempo para comer.

 

A multidão o segue até o outro lado do lago, e Jesus está de novo à sua disposição. Depois de multiplicar os pães, se retira à noite para orar. No dia seguinte volta para Cafarnaum e reinicia a tarefa depois de acalmar uma tempestade.

 

Este plano de trabalho requer uma saúde robusta e um sistema nervoso à toda a prova. No lago, dorme no barco enquanto os discípulos lutam ansiosos contra o temporal. Isto reflete a sua saúde equilibrada, muito apropriada ao espírito equilibrado do Mestre que sempre se manifesta dono de si mesmo e da situação.

 

Seu porte devia ser majestoso e viril. Quando seus compatriotas quiseram jogá-lo precipício abaixo em Nazaré, Jesus passou em meio a eles sem se alterar e com uma postura tal que eles nem se atreveram a pôr em prática o atentado contra a sua vida. Ao ser preso no Getsêmani, seus inimigos caíram uns sobre os outros, impressionados com o porte majestoso do Mestre, que longe de fugir lhes declarou: "Sou eu aquele a quem buscais".

 

O olhar de Jesus devia ser majestoso e dominador. São Marcos repete com insistência quando o Mestre vai proferir uma frase: "...e, olhando-o nos olhos, disse". Quando quiseram apedrejá-lo em Jerusalém, Jesus interpelou os inimigos: "Muitas coisas boas eu tenho feito; por qual delas quereis me apedrejar?". Este domínio de si mesmo transparece nas palavras tranqüilas com que Jesus responde ao criado que o esbofeteia: "Se falei mal, mostra-me em quê; e se falei bem, por que me bates?".

 

Equilibrado: esta composição sadia e equilibrada dos nervos de Jesus contrasta com os desequilíbrios nervosos de Maomé e com o esgotamento físico de Buda, que, vencido pela vida, prega uma religião pessimista e negativa. A atitude de Jesus nos momentos da Paixão é a de um espírito equilibrado, senhor de si mesmo no meio das agitações nervosas dos seus juízes e acusadores. No drama da Paixão não existe maior senhor do que Jesus.

 

Suas últimas palavras na cruz, oferecendo perdão aos inimigos, são o eco da paz interior do seu espírito. Nenhum desabafo raivoso e descontrolado, mas autonomia e perfeito controle dos próprios atos, e tudo com naturalidade e sem afetação.

 

Sadio: Os evangelistas nunca fizeram alusão a alguma enfermidade do Mestre. No duro dia-a-dia do apostolado o seu corpo respondia sem fraquejar. A lida começava de manhã bem cedo. O frescor do seu espírito reflete, no amor que sentia pela beleza da natureza, os lírios do campo, os passarinhos do céu, a candura infantil.

 

Nas suas parábolas não há nada que insinue um espírito cansado e pessimista; ao contrário, sua alma sabe contemplar o Pai sempre trabalhando na natureza e na vida dos homens. A vida apostólica do Mestre decorre ao ar livre, nas intempéries, caminhando pelas calçadas e pelos caminhos da Galiléia, da Samaria, da Judéia, de Tiro, da Sidônia. Vivendo em extrema pobreza, sem ter onde encostar a cabeça, Jesus ia de um lugar para o outro pregando a Boa Nova. Só é possível explicá-lo considerando uma saúde perfeita e equilibrada.

 

 

3   Esboço moral de Jesus

 

Numa palavra, Jesus era perfeito, livre de toda imperfeição e mancha moral diante de Deus e dos homens. Ninguém o surpreendeu em mentira ou noutra falta. Por isso Ele pôde dizer: "Quem me acusará de pecado?". Ninguém pôde acusá-lo de um pecado. São Pedro: "Ele não cometeu pecado, nem se achou falsidade em sua boca" (1Pd 2,22).

 

Impecável significa santo. Jesus era santo. Assim convinha que fosse o nosso Sumo Sacerdote: "Santo, imaculado, afastado dos pecados" (Hb 7,26). Em tudo semelhante a nós, menos no pecado. O Concílio de Éfeso, do século IV, afirma que Jesus nunca cometeu um pecado. E o Segundo Concílio de Constantinopla condena quem diz que Jesus teve paixões carnais desordenadas, heresia e profanação, aliás, que voltou a se repetir no famoso filme "A última tentação de Cristo". É uma postura inaceitável porque em Jesus existe o equilíbrio entre o mundo passional e o racional. Em nós existe o desequilíbrio por culpa do pecado original; em Jesus não houve pecado original. Nasceu sem pecado, assim disse o anjo a Maria. Jesus não teve tendência interior ao mal, como nós. As tentações do deserto e do Getsêmani são extrínsecas, vêm de forças exteriores provocadas pelo Maligno. Jesus as rejeita de imediato, porque em sua alma não há cumplicidade com o mal. Esse "Aparta-te, Satanás" tantas vezes pronunciado por Jesus é o reflexo da ausência de cumplicidade pecaminosa em seu interior.

 

O historiador Ranke escreveu de Jesus: "Na terra nada houve de mais inocente, de mais sublime, de mais santo do que a conduta de Cristo, sua vida e sua morte. Em cada uma das suas frases soprava o puro alento de Deus. São palavras de vida eterna. "O gênero humano não tem lembrança de nada comparável". Assim Jesus chega a ser o ideal ético de todos os tempos e de todas as civilizações.

 

Que dizer das reações fortes de Jesus, dos acessos de ira ou de cólera com os vendedores no templo e com a classe dirigente de então?

 

Santidade e perfeição moral não quer dizer temperamento fleumático, débil, apático, apagado. Não! Jesus é um homem de energia moral, de temperamento forte e apaixonado. E quando está em jogo a glória do Pai, a honestidade e a honra, Ele não tem medo de enfrentar. Não tolera a mentira, a falsidade, a hipocrisia. Fica indignado com quem se julga justo e falseia com a religião. Podemos imaginá-lo com os olhos flamejantes, os lábios trêmulos e a face abrasada, porque "o zelo pela casa do Pai o consome". Não há metades em Jesus. Sua ira não é contra as pessoas, mas contra a atitude hipócrita e dúplice da classe dirigente.

 

                Seu esboço moral, portanto, estava enriquecido com essas jóias: mansidão e compreensão, exigência e força. Elas não se excluem, se complementam.

 

 

4. Esboço intelectual de Jesus

 

Dele foi dito: "Ninguém falou como Ele". Por trás dessa frase se esconde todo o mundo intelectual de Jesus.

 

Como era a inteligência daquele que aos doze anos deixou boquiabertos os doutores da lei? Como era a inteligência daquele que ao falar mantinha todos atentos às palavras de graça que lhe saíam da boca? Como era a inteligência de quem pronunciou o belíssimo discurso do sermão da montanha, jamais superado por ninguém?

 

As pessoas do seu tempo ficavam assombradas diante de Jesus a ponto de se interrogarem: "Donde lhe vêm estas coisas e que sabedoria é esta que lhe foi dada?". Outros diziam: "Como é que Ele sabe tanto sem nunca ter estudado?".

Como era a inteligência daquele que nos descreveu o que há de mais profundo e misterioso, o Reino dos céus, com imagens tão simples e acessíveis como a boa semente, o grão de mostarda, um pouco de fermento, a pérola preciosa, a rede que se enche no mar?

 

A Teologia nos diz que Jesus teve três tipos de ciência:

 

Ciência beatífica intuitiva: Por ser Deus, Ele via Deus cara a cara. Via todo o passado, o presente e o futuro. Via a própria vida, os próprios sofrimentos, trabalhos, apostolado, morte na cruz, triunfo na ressurreição. Via as etapas da Igreja com todas as provas e vicissitudes. Via os seus irmãos, os homens, seus avanços e tropeços, suas misérias e grandezas. E tudo isto lhe causava um duplo sentimento: por um lado, alegria, pelo bem que via em muitos; por outro, dor, pelo mal que muitos causavam aos próprios semelhantes com guerras, crimes e injustiças.

 

Ciência infusa: É a ciência que Deus dá aos anjos e a pessoas privilegiadas que, sem ter estudado, sabem porque Deus lhes infunde o saber na inteligência e no espírito.

 

Ciência adquirida ou experimental: É aquela em que vamos aprendendo com o passar dos dias, gradualmente. Assim se entende a frase do Evangelho "A criança crescia em idade, sabedoria e em graça diante de Deus e dos homens". Jesus era verdadeiro homem e, portanto, o seu conhecimento foi progressivo, como o conhecimento de todos os homens.

 

Jesus tinha uma inteligência brilhante, intuitiva, clara, concreta, baseada na realidade, da qual Ele extraía os dados para a sua pregação. Era muito observador. Reparava em tudo: nos lírios, nos passarinhos, nos campos, nas atitudes dos homens. Seus olhos eram uma câmara fotográfica.

 

5.   Esboço psicológico-temperamental de Jesus

 

Existem psicologias sadias, equilibradas, serenas, entusiastas, otimistas. E existem psicologias doentias, hipocondríacas, esquizofrênicas, megalomaníacas, amorfas, esquisitas, depressivas, pessimistas, assustadoras e desequilibradas. Existe temperamento para todos os gostos: colérico, nervoso, apático, sentimental, apaixonado, sangüíneo, superficial, profundo.

 

Como era Jesus? Jesus foi, é e será um personagem excepcional de todos os pontos de vista. Dividiu a história em duas partes: antes de Cristo e depois de Cristo.

 

Às vezes o seu modo de trabalhar é estranho, a ponto até de os próprios parentes crerem que Ele "perdeu o juízo" (Mc 3,21) e quererem levá-lo para casa, achando que Ele está comprometendo a honra da família.

 

Os inimigos o acusam de estar possuído de um espírito maligno, porque o seu trabalho e doutrina rompe todos os moldes recebidos do ambiente judaico (Mt 12, 24).

 

Outras vezes Ele tem uma atitude excêntrica: faz barro com a saliva e unta os olhos de um cego; põe os dedos nos ouvidos de um surdo; escreve no chão com o dedo e expulsa os mercadores do templo. Será que sofre de crise nervosa, será que tem algum desajuste emocional ou psicológico? Quem é este que não respeita o sábado, que come e bebe com os pecadores? Terá perdido a noção das coisas?

 

Um mestre diferente; um mestre que não tinha um lugar físico para preparar suas aulas; não tinha escola, não levava livros debaixo do braço. Nem tinha casa onde pudesse dormir. Um tanto excêntrico.

 

Que características podemos divisar do temperamento de Jesus à luz do Evangelho?

 

Espírito equilibrado: apesar de a sua vida ter se desenrolado num ambiente de luta e de atrito, dado que a sua mensagem era inovadora e estava sempre chocando as classes dirigentes da época, que o considerava um intruso, Jesus os desmascara abertamente, com espírito decidido. E o faz com espontaneidade, equilíbrio, naturalidade, sinceridade, mas com tom e palavras pungentes, com argumentos contundentes e serenos, a ponto de ninguém se atrever a tocá-lo (Jo 7,45).

 

Quando os compatriotas tentam expulsá-lo, Jesus passa no meio deles com toda a naturalidade, sem nervosismo nem excitação. Na sua vida não existem bruscas alternativas, nem depressões nervosas nem retificações de conduta ou de doutrina. Este equilíbrio e serenidade são reflexo de harmonia e equilíbrio da alma, segura e centrada numa missão superior.

 

Disse um autor: "Homem realmente completo, homem de um tempo e de uma raça apaixonada que rejeitou somente a estreiteza de intenções e de erros. Tem seus entusiasmos e suas cóleras. Conhece os momentos em que a força viril se enche como um rio e parece transbordar. Sempre, porém, permanece lúcido; nada de exagero, de pequenez, de vaidade, nenhuma infantilidade, nenhum traço de amargura egoísta e interessada. Agitadas, trêmulas, as águas permanecem límpidas" (Grandmaison).

 

Seus momentos de cólera têm por centro o zelo pelo Pai, que é o centro da sua alma. E uma reação em defesa dos interesses superiores do Reino de Deus. Jesus não procura interesses pessoais.

 

Espírito lúcido e vontade decidida: lucidez, pois Ele sabia por que tinha vindo, conhecia bem o plano que o Pai lha havia traçado. Lúcido no falar e no pregar. Não era confuso nem perdia a memória. Seu falar era coerente, reflexivo e brilhante. E ao mesmo tempo tinha uma vontade decidida. Nada de indolência, nem vontade doentia ou débil; vontade decidida demonstrada em termos contundentes: "Se o teu olho... se a tua mão... corta-os"; "Deixa os mortos enterrarem os mortos"; "Deixa tudo e segue-me". Foi essa vontade firme o que levou os apóstolos algumas vezes a não ousarem perguntar-lhe; ficavam sobressaltados e com medo. "Que nunca saia fruto de ti!": que decisão a de Jesus!

 

Fiel à missão: por isso Ele rechaçou as propostas de Satanás no deserto. Por isso Ele recusou as propostas das pessoas que queriam torná-lo rei temporal. Por isso Ele refutou a proposta de Pedro de poupá-lo da cruz e do sacrifício. Foi por isso, no final da vida, Ele pôde dizer: "Tudo está cumprido".

 

Espírito sincero e autêntico: em Cristo não havia artimanhas, manipulação das pessoas, engano, palavras de duplo sentido, trapaça. Por isso Ele lutou ferozmente contra o espírito hipócrita e de duas caras dos fariseus, a quem tratou duramente. Não suportava a mentira. Ele disse: "A vossa palavra seja sim ou não... Não se pode servir a dois senhores... A lâmpada do teu corpo é o teu olho". Jesus não tinha máscaras. Era transparente: por isso chorava, sentia tédio e temor, se compadecia, se irava... Não era um estóico. Nada tinha de artificial. Desmascara as armadilhas dos fariseus: "Mostra-me o dinheiro... dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus".

 

Espírito realista, não idealista: Jamais se ouviu dizer que Cristo tenha tido êxtases, momentos em que perdesse o controle dos sentidos por estar em contato com o mundo sobrenatural.

 

Nunca se desconectou do mundo sensível. Nunca esteve fora de si, como estiveram São Paulo e Santa Tereza ou São João da Cruz, a quem Deus concedeu essas graças especiais.

 

Jesus era realista. Nunca esteve doente, o que demonstra um equilíbrio orgânico e psíquico à prova de tudo. As pessoas que tiveram êxtases se sentiam um pouco desconjuntadas, com dores musculares e orgânicas.

 

Jesus vivia na realidade e a realidade era dura. Sua missão lhe criava uma certa tensão: "Tenho que receber um batismo de sangue... As raposas têm sua toca... Vamos a Jerusalém". Jesus não foi um idealista nem um sonhador. Pisava em terra firme "Dá-lhes de comer... Estou comovido". Não era sonâmbulo. Não tinha espasmos nervosos. Não tinha fanatismos.

 

Jesus não tinha extravagâncias. Come, bebe, discute, reza, motiva, chama a atenção, fica irado.

 

Suas parábolas demonstram este espírito realista: pescadores escolhendo os bons peixes; os agricultores semeando a boa semente; os operários diaristas esperando na praça o contrato do dia; a reação dos que trabalharam mais contra os mais favorecidos; a preocupação da mulher que perdeu uma dracma em casa; a súplica da mulher ao juiz iníquo; os amigos importunos que vão à noite pedir pão ao amigo; o rico que não se preocupa com o pobre; os fariseus que, na praça, fazem de tudo para ser vistos; a mãe que vai dar à luz; os lírios do campo; os que entram no banquete sem as vestes festivas... Que olhar tão realista e observador! Nada lhe escapa. Com as suas parábolas nós poderíamos reconstruir o meio social da sua época.

 

Espírito simples: A simplicidade é a não complicação diante de Deus, dos homens e de si mesmo. É sinônimo de naturalidade, autenticidade, transparência, uma fluência na relação com o Pai. No relacionamento com os homens Ele não tinha gestos teatrais, pomposos, espetaculares com o intuito de atrair as massas.

 

Não vociferava nas praças. Seu vocabulário era singelo, natural, simples, imaginativo e flexível. Não divagava; não era superficial; não se dava a lógicas rabinas eruditas. Era natural, sem afetação, sem excentricidades, sem formalismo. Por isso pedia que os jejuns não fossem feitos em público, mas privadamente. Ia aos convites com pessoas simples e inclusive pouco recomendáveis. Não complicava, não desordenava, não cismava. Não tinha segundas intenções. Por isso desmascarava os fariseus, que eram complicados de mente, atrapalhados, maliciosos. Tudo em Jesus era transparente, autêntico, sincero: "O olho deve ser o espelho do coração". Simplicidade. Simples foi o chamado de cada apóstolo: nada de barulho, nem de gritos. Nada de sonhos e visões: "Vem e segue-me". Simplicidade. Falava abertamente e sem rodeios. Simplicidade. Por isso simplificou os 503 preceitos judaicos em um: Amai-vos.

 

Espirito original e independente: sua mensagem rompe com os moldes judaicos em conteúdo e em forma. Considera todos como irmãos, não existem estranhos nem estrangeiros. Todos somos filhos do mesmo Pai Celestial. No tempo de Jesus imperava um forte nacionalismo, de revanche contra os estrangeiros. Jesus fala de universalidade, de fraternidade, de unir Oriente e Ocidente, de se sentarem todos no mesmo banquete.

 

Original, também, ao dar primazia e prioridade ao valor ético, interior, espiritual e não à palavra, que às vezes mata se não estiver permeada de espírito: "Escutastes o que foi dito, mas Eu vos digo..." Que postura tão valente, tão independente! "Ninguém falou como Ele".

 

Pelo fato de possuir este espírito de independência, corrige a interpretação dada às leis antigas, simplifica tudo, realça e detalha. Tudo parecia novo, original: oferecer a outra face, devolver o bem pelo mal, amar os inimigos, não se permitir sequer desejar a mulher do próximo, perdoar; são só os doentes os que precisam de médico, buscar o perdido, o que sai do coração é o que mancha...

 

Graças a este espírito original, Ele não promete um messianismo terreno, político, social, e sim espiritual, onde os pobres, aflitos, humildes, pacíficos, perseguidos, são aqueles que terão a recompensa. Por isso a sua doutrina, por ser nova, pedia odres novos, corações novos, mentes novas. Do contrário perderia o "vinho" da sua mensagem.

 

Original e atrevido. Ele se considera superior à lei, ao templo, ao sábado, e, com independência e liberdade, muda os antigos costumes até então intocáveis: fala com uma mulher samaritana, come com pecadores, cura os estrangeiros, enfrenta os mestres da lei, infringe o sábado para fazer bem aos necessitados...

 

Espírito de mansidão sem sentimentalismos: não houve temperamento mais compreensivo e condescendente com o próximo do que o de Jesus. Seu espírito de mansidão culmina com o silêncio e a compostura ao ser esbofeteado. Não é um silêncio cheio de medo e de impotência; é um silêncio cheio de domínio e de contenção das paixões irascíveis. Jesus é uma síntese de majestade e de doçura. Sabe consentir sem rebaixar-se; entregar-se sem perder a superioridade; dar-se sem se abandonar.

 

Sua doçura e mansidão não significavam transigência e aprovação de situações injustas ou de atitudes erradas. Por isso Ele desmascara a falsidade e a hipocrisia das classes dirigentes judaicas com frases duras e cortantes. Não se rebela contra a autoridade; ao contrário, manda os seus seguirem as instruções da autoridade mas não a sua conduta. Vigoroso e suave, duro e condescendente. No equilíbrio das duas tendências está o caráter perfeito.

 

Espírito compreensivo e humano, sem concessões à demagogia: Jesus era intransigente com o pecado e indulgente com o pecador. Podemos ver Jesus diante da mulher adúltera (Jo 8,1s) e dos judeus que a haviam trazido. Foi indulgente com ela, porque estava arrependida: "Vai e não peques mais". E foi intransigente com os judeus: "Quem de vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra".

 

Vemos Jesus com aquela mulher samaritana (cf. Jo 4). Jesus lhe mostra o pecado: "Tiveste cinco maridos, e aquele que tens agora não é teu marido". Mas a foi levando a se arrepender. Jesus não atirava pedras contra os pecadores, como faziam os fariseus. Era compreensivo com a fraqueza humana, mas intransigente com a mentira, a hipocrisia, a falsidade, a ambição, o comodismo. Não teve dúvidas ao falar duro com Pedro: "Afasta-te de mim, Satanás", quando ele quis tirar a cruz da missão de Jesus, tirar-lhe o sofrimento (Mt 16,21-13). Ainda ressoam as terríveis palavras contra a atitude daqueles chefes religiosos: "Fariseus, sepulcros caiados, raça de víboras". Davam a impressão de possuir virtudes interiores que não tinham.

 

Compreensivo com o pecador humilde. Por isso perdoou ao bom ladrão (cf. Lc 23,39-43), a Zaqueu (cf. Lc 19,1-10). Mas esta compreensão para com a fragilidade humana estava acima da demagogia ou da condescendência com as paixões baixas das multidões. Por isso Ele não lança um programa ou uma mensagem fácil, cômoda, de satisfações sociais em parâmetros terrenos; não promete bens terrenos, mas perseguições, dificuldades. Pede aos que o seguem renúncias, negação de si mesmos, tomar a cruz... Amá-lo mais do que aos entes queridos.

 

Nada de concessões à sensualidade e ao instinto animal do homem. Primeiro os valores do espírito, que pedem ascese, trabalho, renúncia. Jesus não adula, exige; Jesus não cede, exige. Não contemporiza, exige. Nada de demagogias, como faziam outros messias. Sua mensagem era crua: cruz, sacrifício, renúncia. E, entretanto, era o Pastor que procurava a ovelha perdida e se alegrava ao encontra-la: a punha nos ombros, fazia festa. É o Médico que cura as feridas profundas do coração de quem se aproxima humilde e arrependido. É o Pai que se compadece das multidões famintas de sua Palavra, e os alimenta sem pressa, mesmo que Ele próprio não tenha tempo para comer. Jesus era, portanto, intransigente com o pecado, mas compreensivo com o pecador. Para isto é preciso ter um coração nobre, grande para amar e forte para lutar.

 

Espírito austero: austero não no estilo de João Batista, que fugiu do mundo e das suas alegrias. Jesus não é um anacoreta que vive isolado no deserto tendo como companhia somente os chacais. O anacoreta se desconecta da vida social, dos seus problemas e angústias. A missão de Jesus devia se desenvolver na confusão das cidades, convivendo com os seus concidadãos e participando das suas preocupações. Os monges anacoretas tinham esse lema: "Foge, reza, chora". Jesus não. Jesus quer santificar a vida social no seu próprio ambiente, em contato com as diversas classes sociais do seu tempo.

 

Onde está, então, a sua austeridade, se tinha que viver no meio do mundo?

 

Na sua vida pessoal Ele tinha abraçado a mais estrita pobreza. Não tinha onde repousar a cabeça. Tinha um alimento diferente. Austeridade era ter o essencial, viver com o essencial de alimento, de moradia e de roupa. Austeridade como liberdade interior. Quanto menos tem, mais livre Jesus se sente.

 

A sua mensagem, por outro lado, exige austeridade, renúncia: Não acumuleis tesouros na terra, onde a traça corrói. De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro? Uma coisa é necessária. Pede austeridade, para livrar o espírito a fim de ele voar com mais liberdade rumo à santidade. Pede que se perca a vida material para se salvar a alma espiritual. Como o cirurgião que amputa um membro para o bem do todo. Pede que se venda o que é material para se comprar a pérola preciosa da sua amizade, da sua graça, do seu Reino.

 

Nada tem valor para Jesus se não for em função da sua dimensão religiosa e espiritual. Por isso as coisas materiais têm de ocupar um lugar secundário na vida do cristão. Se não há renúncia na vida, não existe clima propício para o desenvolvimento dos valores espirituais. A sua mensagem, portanto, supõe um programa de renúncia. Não tenhamos ilusões: para entrar no Reino dos céus nós temos de nos desprender. A austeridade nos ajuda a elevar o olhar para as coisas do alto e a nos desprendermos das coisas daqui, afetivamente primeiro e efetivamente depois.

 

Espírito razoavelmente afetivo: a atitude de austeridade e desprendimento de Jesus diante da vida não é oposta a um temperamento afetivo, cálido, cordial. Austeridade não significa insensibilidade, frieza no trato com os outros. A austeridade regula a tendência de todo homem a possuir mais do que o necessário. A afetividade é uma qualidade que todo homem tem que desenvolver numa faixa de equilíbrio que o torna mais homem.

 

Como Cristo demonstrou a sua afetividade?

 

Os Evangelhos falam da sua predileção pelas crianças, símbolo de candura e de humildade, necessários para entrar no Reino. Com os seus apóstolos Ele foi afetuoso e o Evangelho não esconde que Ele teve preferência por alguns: Pedro, Tiago e João. Apesar da rudeza daqueles pescadores, Jesus teve gestos de delicadeza e afetividade: quando os via cansados, os levava à outra margem para passar um fim de semana. Na Última Ceia os chama "filhinhos" e deixa o seu testamento de amor, como sinal de que eles são totalmente seus. Lava-lhes os pés...

 

Quando os envia a fazer apostolado se preocupa de que nada lhes falte. Foi companheiro desses doze nas fadigas e nos dissabores, nas alegrias e nos sobressaltos. Com eles desenvolveu uma afetividade sadia, equilibrada e orientada ao bem. A afetividade unida à amizade criou laços irrompíveis, estreitos e duradouros.

 

Antes de partir para o Pai, Jesus os conforta, os anima e promete um Consolador, o Espírito Santo. Promete a sua assistência até o final dos tempos. Hoje diríamos: "Jesus tinha coração". Isto é a afetividade. A própria Eucaristia foi um presente desta afetividade inigualável que terminou em amor íntimo e oblativo.

 

As lágrimas que Jesus derramou em várias ocasiões demonstram que Ele não era uma pessoa austera e insensível, mas, ao contrário, de uma delicada capacidade de afetividade. O fato de não o aceitarem como Messias o entristecia. A sorte do seu povo, a injustiça, a exploração, o sofrimento da sua gente o entristecia. A ingratidão e a teimosia de alguns o entristeciam.

 

CONCLUSÃO: Vimos todo um mosaico de virtudes em Jesus. Virtudes em plena harmonia, que formam a rica personalidade de Cristo, seu mundo psicológico e afetivo. Estas virtudes Ele as viveu de um modo sereno, límpido, natural, sem tensões. Cristo representa o equilíbrio, o ideal mais puro da humanidade. Nele temos que nos espelhar, porque Ele é o Caminho, a Verdade e o Modelo.

 

Como conclusão, façamos um breve resumo do que foi dito. Como era Jesus?

 

Diante do Pai: obediente, agradecido, atento, solícito, amoroso, delicado, respeitoso.

 

Diante dos homens: demonstra um grande interesse pelo homem, por cada homem. Ama o homem com compaixão, lhe fala com simplicidade, o corrige com bondade e exigência amorosa para ele se converter; procura a conversão do homem. Quer fazê-lo sair do seu reduzido mundo, abrir-lhe horizontes, dar-lhe asas para entender o que ele é, o que ele pode ser. Deseja fazê-lo superar o imediato para ver a profundidade da sua vida e da sua ação. Usa termos absolutos: Ninguém, todos, perder-se, salvar-se; não fica na superficialidade, vai até as raízes. (Mc 8,35; Mc 9, 43-44). Utiliza narrações ou parábolas para iluminar as atitudes que o homem deve ter na vida, para ensinar como deve agir para ser melhor: o semeador e a sua colheita (Mt 13), operário e trabalho (Mt 20, 1-16), servo e senhor (Lc 12, 45-47), ladrão (Lc 12,39), pai e filho (Lc 15, 11-32), o administrador e o rico (Lc 16, 1-8); rico e pobre (Lc 16, 19-31), negociantes e casas de empréstimos (Lc 19, 12-23), convidados às bodas (Lc 14,8-12), governantes e súditos (Mt 20,25). Também usava paradoxos e enigmas para fazer o homem pensar, animando-o a procurar. Emprega o gênero apocalíptico para recordar a insegurança do homem, o juízo a que está submetido, a soberania de Deus, sua espera paciente, sua justiça, a maldade do pecado, a necessidade de estar vigilante (Mt 24,36; 24, 27-28; Mt 25). De onde Ele ensina o homem? Qualquer lugar é seu púlpito: praças, estradas, margens do lago, sinagoga, banquetes, templo, etc. Como Ele ensina? Com autoridade, com decisão, com paciência e bondade.

 

Diante das coisas: amor e respeito pela natureza. Observou tudo: pássaros (Lc 9,58; 12,6), os corvos (Lc 12,24), os lírios (Lc 12,27), a erva do campo (Lc 12,28; Mt 6, 30), as videiras e os ramos (Jo 15), as uvas e os espinhos, os figos e os abrolhos (Mt 7,16), os juncos e as ervas agitadas pelo vento (Lc 7,24), as nuvens e o céu (Lc 12, 54), o vento (Jo 3,80), a galinha (Lc 13, 34). E todas as coisas Ele as relaciona com o Pai, com o mundo espiritual. Tudo é sinal de Deus. Ele leva em conta os fatos sociais, civis e religiosos, quotidianos. Utiliza símbolos que transportam para uma realidade profunda: sal, luz, lâmpada, perfume, traça, caruncho, viga, pérola, rocha, rio, vento, casa, rede, tesouro, grão de mostarda, grão de trigo, joio, etc Tudo lhe servia para pregar a mensagem divina. Jesus se dá conta das relações humanas, comerciais, políticas e religiosas existentes na sociedade em que vive.

                                                                                                                                                                                                       
Um apostolado dos Legionários de Cristo e do Regnum Christi a serviço da Igreja.