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Capítulo 5
As diversas heresias cristológicas ao longo dos séculos

É curioso constatar que ao longo dos séculos não se soube entender Jesus. Isso é natural, porque é um mistério: um Deus com duas naturezas, uma divina e outra humana. Quase todas as heresias observaram Jesus de um ponto de vista e desprezaram e desvalorizaram, consciente ou inconscientemente, o outro. Mas todas as heresias trouxeram mais luz para este Mistério e a Igreja pôde se aprofundar neste único tesouro que dá razão da nossa fé: Jesus Cristo. Assim, portanto, podemos dizer com São Paulo: "Para os que amam a Deus, tudo coopera para o bem"; também as heresias, porque graças a elas ou por causa delas a figura de Jesus Cristo apareceu resplandecente, luminosa e esplêndida.

 

Jesus foi, é e será um mistério, porque é ao mesmo tempo Deus e homem verdadeiro. Nele convivem duas naturezas distintas, a humana e a divina, em uma só Pessoa divina. Por isso, as diversas heresias cristológicas não souberam conjugar essas duas realidades: é ao mesmo tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Uns, por querer valorizar a divindade, menosprezam a humanidade. Outros, pelo contrário, por querer valorizar a humanidade, menosprezam a divindade, ou simplesmente a negam. O dogma católico diz assim: "Jesus é verdadeiro Deus e Filho de Deus, gerado antes dos séculos, da mesma substância do Pai; e é homem verdadeiro que assumiu um corpo real, não aparente, no seio de Maria, nascido no século".

 

Estas são as principais heresias ou erros doutrinais sobre a pessoa de Jesus, Filho de Deus.

 

1. Docetismo: heresia difundida no século I por Márcio, Valentino e Basílides (estes últimos gnósticos) que reduz a carne de Cristo a uma aparência: "Parece que come, que caminha, parece estar cansado..." Tanto São João em suas cartas (1Jo 4,2) como Santo Inácio de Antioquia lutam contra este erro. Jesus é verdadeiro homem que come, bebe, se cansa, caminha, chora, admira. Jesus caminhou pelas calçadas poeirentas de Israel. Jesus olhou com os próprios olhos para as crianças inocentes, para os homens enfermos, para os fariseus complicados. Jesus amou também com coração humano.

 

2. Ebionismo: heresia difundida no século II em ambientes judaico-cristãos, ela nega que Cristo tenha sido gerado pelo Pai e reconhece em Cristo o homem investido pelo Espírito Santo no Batismo. Esta heresia foi condenada por São Irineu de Lyon, que diz que Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Verdadeiro Deus porque só Deus pode dar a salvação e restabelecer a união com os homens. Verdadeiro homem porque compete ao homem reparar a própria falta. Por ser Deus reparou a ofensa infinita que o homem perpetrou contra Deus. Por ser homem, o homem ficou redimido e a sua conta saldada.

 

3. Adocionismo: heresia difundida no século II por Teodoro o Velho e por Paulo de Samósata, que diz que Cristo é um simples homem, adotado por Deus como portador de uma graça divina excepcional. Nega, portanto, a Trindade, a divindade de Cristo e a encarnação do Verbo. É preciso voltar ao mesmo fato: Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Precisamos de fé para acreditar nisto, pois Cristo, não nos esqueçamos, é um mistério. Só os humildes e simples se abrem totalmente a este mistério.

 

4. Gnose cristã: heresia difundida no século II por Márcio, Valentino, Epifânio e Simão o Mago, segundo a qual Jesus não é Deus, mas um "eon" no meio dos demais, que veio para dar conhecimento ao homem enganado pelos próprios sentidos. Cristo desce sobre Jesus no momento do batismo. É uma heresia, porque cria em Jesus um dualismo de pessoas e desvirtua a sua missão divina e redentora. Esta heresia foi combatida por Hipólito e Santo Irineu. Em Jesus há uma só pessoa, a divina, com duas naturezas, a humana e a divina. De novo, o mistério, diante do qual os nossos joelhos têm que se dobrar. Se houvesse duas pessoas, teria também duas personalidades; haveria dois centros de comando. A saúde psíquica e psicológica correria risco. Esta única pessoa divina de Cristo faz uso das duas naturezas, sem mistura e confusão, como de duas mãos. As duas naturezas são instrumentos que a Pessoa divina de Jesus utiliza para realizar a sua missão salvadora.

 

5. Arianismo: heresia difundida no século III por Ário, que nega a divindade de Cristo. Cristo, ele diz, é filho adotivo de Deus, não consubstancial ao Pai. E o Espírito Santo é a primeira criatura do Filho, portanto, inferior a Ele. Esta heresia foi condenada no concílio de Nicéia (325): "Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem". São Jerônimo pronunciou esta frase célebre: "O mundo despertou um dia e gemeu ao ver-se ariano". Muitíssimos sacerdotes e fiéis foram martirizados, bispos católicos mandados ao desterro e substituídos por arianos. Tudo isto por culpa do imperador Constâncio II, ariano, que tinha tomado posse de todo o Império. Foi ele quem disse: "Acabaram-se os niceianos (quer dizer, os católicos); vencemos nós, os cristãos (quer dizer, os arianos); se pudéssemos agarrar e enforcar o bandido do bispo de Alexandria". Referia-se a um grande defensor da fé católica, Cirilo de Alexandria.

 

6. Apolinarismo: heresia difundida no século IV por Apolinário, que nega a alma humana de Cristo, crendo que esta alma humana seria como a nossa, pecaminosa. Assim acreditava salvar a divindade de Cristo. A Igreja, no sínodo de Alexandria (362), assegurou a alma de Cristo dizendo: "O Verbo se encarnou para salvar alma e corpo; por isso teve que tomar um corpo". O sínodo de Roma do ano 377 condenou a heresia de Apolinário. A alma humana de Cristo não é pecaminosa, porque não teve pecado original, e, portanto, tampouco as conseqüências desse pecado original com o qual nascemos todos nós, mortais. Só o pecado é o que deixa a marca pecaminosa na alma. Jesus não teve pecado e, portanto, a conclusão é bem clara.

 

7. Nestorianismo: heresia difundida no século V por Nestório, bispo de Constantinopla, que sustentava a teoria de duas pessoas em Cristo: uma divina e outra humana. O Concílio de Calcedônia, de 451, diz que em Cristo há duas naturezas distintas, unidas numa só pessoa, a do Verbo. O que pensaríamos de um homem que tivesse duas pessoas ou duas personalidades incorporadas em seu ser? Qual das duas mandaria? Que luta dentro deste mesmo ser!

 

8. Monofisismo: heresia difundida no século V por Eutiques, arquimandrita de Constantinopla, que sustentava uma só natureza em Cristo, a divina. Deu resposta o Concílio de Calcedônia do ano 451: em Cristo existem duas naturezas: uma divina e a outra humana. Se fosse verdadeira essa heresia, como se explicariam tantas atitudes de Cristo no Evangelho: Jesus se cansava, comia, bebia, caminhava, chorava, se enchia de uma santa cólera? Se não tivesse tido natureza humana, não poderia ter realizado essas atividades que são humanas.

 

9. Monotelismo: heresia difundida no século VII por Sérgio, patriarca de Constantinopla, que sustentava uma só vontade em Cristo, a divina. A Igreja deu resposta no III Concílio de Constantinopla (680-681): "Em Cristo há duas vontades sem divisão, sem troca, sem separação nem confusão". As duas vontades não se opõem em Cristo, porque a vontade humana segue sem resistir ou se opor, submetendo-se livre e amorosamente à vontade divina onipotente.

 

10. A heresia do século XX: Hoje em dia pulula uma heresia muito grave. Por causa do desejo de aproximar tanto a Cristo dos homens e dos pedidos de solução para os problemas econômicos e materiais, Cristo acabou despojado de toda a sua dimensão divina e espiritual. Para esta heresia, Jesus não veio nos salvar do pecado, não morreu na cruz para nos redimir e nos abrir a porta do céu; veio como guerrilheiro, inconformista e violento que quer estabelecer a ordem e a justiça servindo-se da violência e da guerra, e destruindo todos os ricos e capitalistas para dar assim de comer aos pobres. Em que Evangelho encontramos isto? Somente bebendo em fontes marxistas é possível chegar a estas aberrações. O Papa João Paulo II nos iluminou neste grande perigo no seu documento sobre as luzes e sombras da teologia da libertação. Este erro desvirtua a missão de Cristo, porque Cristo veio nos libertar do pecado que se esconde no coração de cada homem. Eliminado o pecado, será possível mudar mais facilmente as estruturas do pecado. Os que defendem esta posição dizem a Cristo: "O urgente hoje é o estômago, a cultura, a distribuição da propriedade. Quando tivermos concluído tudo isso -e só o conseguiremos através da revolução-, podes vir ao mundo para nos falar do teu Pai Celestial. Por enquanto, do teu Reino o que nos interessa é o que pode nos ajudar num projeto revolucionário. E não estranhes se nós te 'utilizamos', se adaptamos a tua pregação às nossas ideologias: isto vem sendo feito há dois mil anos". 

 

CONCLUSÃO: As heresias não devem nos escandalizar nem desanimar. Pelo contrário, elas nos convidam a consolidar e afirmar melhor a nossa fé, para continuar dando explicações dela a quem nos pedir. A Providência de Deus sabe conduzir a nossa história pelos caminhos que Ele achar mais apropriados para manifestar a sua Sabedoria e a sua Misericórdia para com todos nós. Ao mesmo tempo, nos faz vigiar, porque ninguém está seguro de não cair. "Qui se existimat stare, videat ne cadat", nos diz São Paulo em I Coríntios 10,12, ou seja, aquele que acredita estar firme, que se cuide para não cair.

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